Criptocromo

Elias Maroso




 Criptocromo 

Instalação eletrônica. 
Impressões em jato de tinta, peças de acrílico cristal, 
alto-falantes artesanais de acetato, componentes eletrônicos, 
ímãs de neodimeo, fios de cobre esmaltado, microcircuito executor 
e peça cíclica de áudio (1min32s). 

Dimensões gerais de 85 cm x 65 cm x 15 cm. 

Ano de 2019


A instalação Criptocromo tem como peça principal uma série de fotografias que busca simular a maneira como aves migratórias enxergam o imenso campo magnético do planeta Terra no horizonte. A bússola natural aviária é possível por uma proteína no olho dessas espécies, chamada criptocromo – “cor escondida” em grego (κρυπτός χρώμα). A simulação dessa capacidade visual foi adaptada de uma publicação científica (Solov'yov; Mouritsen; Schulten, 2010) que, na instalação, foi reformulada com fotografias do centro de Porto Alegre/RS. Essa adaptação marca os principais pontos cardeais e colaterais do horizonte local em sobrevoo [L, Ne, N, No, O, So, S, Se] com manchas escuras no céu, seguindo o padrão visual proposto pelo documento científico original.


O trabalho também conta com dois alto-falantes artesanais feitos com ímãs, espirais de adesivo condutivo de cobre, peças de acrílico cristal, transparências de acetato impresso e com laminação plástica que imita o aspecto metálico do cobre. Desses dispositivos é executada uma peça sonora por meio de vibrações eletromagnéticas. Com duração de 1min32s, sendo reproduzido ciclicamente, o som é gerado pela própria vibração das folhas de acetato impressas, mediante impulsos elétricos de um circuito ocultado da sala expositiva. Dessa engenhoca, sai o canto sutil do pássaro Olho de Prata (Zosterops lateralis), uma das aves que enxergam as manchas no horizonte pela magnetorecepção.


Elias Maroso Elias Maroso
Detalhes de Criptocromo na exposição coletiva Não-Ver,Visar, Espaço de Arte da UFCSPA, Porto Alegre/RS. Setembro e outubro de 2019.


A principal motivação do trabalho está na visão além do humano, apontando ocorrências do mundo que outras espécies são capazes de ver. Trata-se de uma aproximação em estado de maravilhamento sobre invisbilidades reais, impossíveis de serem vistas mesmo com olhos em perfeitas condições. O olho humano deixa de ser a referência central sobre as coisas que podem ser vistas.

Por tratar dos limites do visível e de capacidades não prescritas no organismo humano, Criptocromo foi apresentado pela primeira vez na exposição Não-Ver, Visar, realizada em setembro de 2019 no Espaço de Artes da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. A mostra tomou como principal assunto a inter-relação do visual e do não visual na experiência da imagem. O tema foi abordado com obras de minha autoria em diálogo com o acadêmico de psicologia deficiente visual Gabriel Pessoa, co-autor do livro Histórias de Baixa Visão (Pessoa in Baierle, 2017), título que reúne depoimentos da vida cotidiana de pessoas cegas ou com reduzida acuidade visual. Nesse contexto, a instalação sobre a visão magnética das aves migratórios buscava mostrar que até as pessoas enxergantes tem sua parcela de cegueira para determinados acontecimentos do mundo. E, com isso, ao se tratar de imagens e da arte, o segredo estaria em não ver com os olhos.


Elias Maroso Elias Maroso
À esquerda: detalhe de alto-falante artesanal da instalação Criptocromo, desde onde sai o canto da espécie de pássaro Olho de Prata. Ano de 2019. À direita: imagem do pássaro Olho de Prata (Zosterops lateralis), foto de Ormond Torr. Anos de 2010.


Acesso ao artigo de entrada Cryptochrome ans Magnetic Sensing do Theoretical and computational Biophysics Group da Universidade de Illinois, Urbana-Champaign. Ano de 2010. Para ver o artigo completo, clique aqui.



→ Esta obra faz parte da pesquisa de doutorado Arte de Pulsar Caminhos e de Atravessar o Espaço pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS, ênfase em Poéticas Visuais, linha de pesquisa Linguagens e Contextos de Criação. O estudo consiste no desenvolvimento de uma prática artística e reflexão teórica relacionada à ideia do atravessamento do espaço e dos trânsitos constitutivos entre o dentro e o fora tanto dos recintos expositivos como da própria ideia de disciplina artística. Sob orientação da artista e prof.ª dr.ª Maria Ivone dos Santos, essa investigação envolve o período de 2016 a 2020, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes / Governo Federal / Brasil).